A relação do técnico de futebol com o torcedor

No Brasil, a lei que regulamenta a profissão de treinador de futebol é a 8.650/93. Sancionada pelo presidente Itamar Franco, tem apenas 9 artigos. Dentre os direitos garantidos, está a “ampla e total liberdade na orientação técnica e tática da equipe”.

Apesar de os grandes treinadores ganharem salários astronômicos, eles representam apenas uma pequena parte da categoria. A grande maioria recebe valores bem modestos, além de conviver com a constante interferência de diretores ávidos para agradarem aos empresários.

Um bom treinador de futebol precisa cumprir 4 funções principais:

Prever: estabelecer metas possíveis de serem alcançadas.
Organizar: definir a metodologia de trabalho em conjunto com os demais membros do departamento de futebol.
Coordenar: estruturar e treinar a equipe.
Controlar: fazer a constante comparação dos resultados obtidos com as previsões iniciais.

Antes, porém, é necessário saber onde está pisando. Conhecer o clube, sua tradição e identidade são requisitos fundamentais. Há quem diga que um profissional deve se distanciar da torcida para se concentrar no trabalho. Balela. Como pode uma empresa se distanciar de seus clientes?

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Crédito: joncandy via VisualHunt.com / CC BY-SA

A torcida é o maior patrimônio de um clube. Ou será mesmo que um fanático de 70 anos, acompanhando o time do Carpória FC nos estádios desde os 10, não tem nada para lhe passar que possa acrescentar no seu trabalho? Às vezes as pessoas ficam tão concentradas em questões complexas que acabam se esquecendo das mais simples.

Por arrogância, muitos jogam fora as oportunidades tão particulares de um clube de futebol: contar com diversos colaboradores. Pessoas que não exigem nenhum retorno financeiro em troca de suas sugestões. Pelo contrário: gastam dinheiro. Sócio-proprietário, sócio-torcedor, ingresso, combustível, estacionamento, bebida, comida, produtos oficiais, etc. O fã investe em tudo isso (ou em parte) com o único interesse de ver seu time vencer.

O treinador deve estar ciente de que é ele quem define, mas saber ouvir é fundamental. O futebol é um mercado. É verdade. Mas não é como os outros segmentos. Tem a especificidade de ser movido pela paixão. Não é exagero dizer que muitos encaram o esporte como uma religião. E não há religião que se sustente se distanciando dos fieis.

O pensamento egocêntrico de “a caneta é minha e a torcida só quer saber do resultado” é ultrapassado. Tem que haver sintonia. Há casos onde o treinador, de tanto insistir, conseguiu vitórias e convenceu a torcida, é verdade. Mas será que são a maioria? Pensar que os fãs esperam apenas resultado é não entender como funciona o futebol. Mais do que um título, há a necessidade de se sentir identificado com o clube. É só analisar como continuam fieis os torcedores de clubes grandes que já presenciaram anos sem títulos de expressão. Mais ainda: torcedores de clubes pequenos que comparecem aos estádios mesmo sem nunca terem visto uma taça na vida.

No dia do jogo, o foco do técnico tem que estar 100% na partida. Mas durante a semana é fundamental contar com um canal para participação da torcida. Por vários motivos: saber o que ela espera do clube, colher sugestões, avaliar as críticas e selecionar material para as preleções. É comum que os treinadores exibam compactos com os principais lances dos últimos jogos da equipe e do adversário, além de destacar os gols e bolas paradas. Mas estimular a motivação intrínseca, reforçando a importância dos atletas para outras pessoas, pode melhorar o prazer deles em entrarem em campo com a confiança reforçada.

Nesta segunda década do século XXI, tornou-se fundamental para os negócios e para o relacionamento com os clientes, no caso torcedores, contar com uma página nas mídias sociais. Você já tem a sua?

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